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Uma história que se repete: apologia ao crime e o caso Oruam

5 min de leitura
Uma história que se repete: apologia ao crime e o caso Oruam

Coluna de Wander Florêncio questiona racismo, apologia seletiva e o uso político da cultura preta e periférica no Brasil.

Coluna de Wander Florêncio questiona racismo, apologia seletiva e o uso político da cultura preta e periférica no Brasil.
Coluna de Opinião por Wander Florêncio
Meu saudoso pai tinha e com razão um dito que ele usava que era assim: “macaco gosta muito de sentar em cima do próprio rabo e ficar apontando o rabo dos outros”.
Pois bem: quem decide da noite pro dia o que é apologia ao crime?
Se for pra falar de apologia, vamos botar as cartas na mesa e começar falando então do dito sertanejo universitário, gritando para o mundo sobre "pegar" mulher bêbada e arrastar pra meio de mato ou caçamba de D20 no meio da escuridão noturna.
Ah! E vamos falar dos “Datenas” da vida, quer apologia maior do que essa na TV das 18:00 diante da cara dos nossos filhos?
Fora a corrupção policial, se tem policial que age pior ou até igual aos bandidos que tanto dizem combater, e depois é o Oruam, o Racionais MC's, os funkeiros, a galera das batalhas de rima, que fazem apologia de crime em suas músicas?
Então, sendo assim, de que apologia e de que crime o “serumaninho” tá falando, hein? A gente precisa acordar pra realidade, e parar de se emocionar tanto.
Pois bem, o que aparenta é que Oruam tá servindo de imagem pra esses fulanos do MBL lucrarem muito mais do que esse projeto de lei em si nas custas dele. E quem fica feliz de ver um preto rico é outro branco rico, mano, só o branco pobre que não gosta e fica na inveja, enquanto o rico tá lá, de boa, vendendo o que não queria mais, aquela mansão, aquele iate, aquele carro.
A gente tem que parar com essa emoção de achar que o racismo vai embora só porque tem um preto no poder. Desde a escravidão, esses benefícios individuais já eram dados.
Ou vocês já se esqueceram dos negros da casa, que entregavam os próprios negros pra ganhar migalhas? Já esqueceram dos bafiotes na revolução do Haiti? Será que não aprenderam nada vendo o filme do Django Livre, nas cenas que aparece o Stephen?
É necessário que o sistema racista transmita a falsa ilusão de que estamos ascendendo, que estamos chegando lá.
“Pretos no topo”, “olha aí já conquistaram muito” — tudo isso são distrações. Eles precisam de uma cortina de fumaça para esconder as atrocidades que estão sendo cometidas todos os dias com a população negra.
Então, galera, não é porque tem um preto no poder que as coisas estão melhorando, não mesmo.
A gente precisa de grana, claro, mas também de organização, compromisso, autonomia, e construir uma comunidade forte. Dinheiro por dinheiro não resolve nada, só atrapalha.
Parem de se iludir achando que esse projetinho é uma grande vitória pra comunidade pobre, porque não é. Pra quem você acha que vai voltar grande parte desse dinheiro vindo desse projeto?
Precisamos abrir os olhos e parar de ser tão ingênuos, ou melhor, de sermos feitos de tontos. O cão é muito bem articulado, e não temos mais tempo pra perder.
Você já sabe. A questão nunca foi só o que se fala, mas quem fala.
Quando um artista negro/periférico sobe ao palco com grande projeção — como o MC Poze, a Leci Brandão, o Bezerra da Silva, o Racionais MC's, o Facção Central, o Eduardo Taddeo, o Oruam, por exemplo, só pra citar alguns — e encara o sistema de frente, sem pedir licença, sem passar pelo crivo dos brancos e sem se curvar, ele vira alvo.
Não que já não fosse, desde sempre. Afinal, são pessoas negras.
Mas pessoas negras, mesmo quando “chegam lá”, não estão protegidas. Não importa a fama, o dinheiro, os números nas redes. O racismo continua agindo, e com ainda mais força quando essas pessoas se tornam símbolos como os casos aqui mencionados.
A história está cheia de exemplos. Fela Kuti, Tupac Shakur, Billie Holiday — todos foram perseguidos, censurados, presos. E não é preciso ir longe, lembra o caso do DJ Rennan da Penha.
Esses casos não são erros isolados. São parte de um projeto coerente. O sistema não se atrapalha, ele sabe muito bem quem quer silenciar, ele é coerente com seu projeto.
Quando o povo preto e periférico fala alto, sem filtro do Instagram, sem câmera de televisão e microfone querendo distorcer o que ele tá falando, e sem maquiagem, o sistema responde: com censura, repressão, cadeia, bala, ameaça.
O sucesso individual é frágil. Não nos protege. Desde a escravidão, benefícios individuais sempre foram a isca.
O palco, o microfone, o contrato, os milhões de views, os seguidores, nada disso nos blinda do racismo.
Nada disso impede que sejamos perseguidos, humilhados na frente dos nossos filhos, encarcerados ou mortos.
É urgente que artistas, comunicadores, o povo preto se organize. É “nós por nós”, temos que ser “NÓS POR NÓS MESMOS” sempre.
É preciso construir uma nação preta, pobre, forte, consciente e organizada para garantir o mínimo de dignidade para todos os nossos. Só assim a gente muda as regras do jogo.
Caso contrário, seguimos vendo a próxima barbárie — de novo como espetáculo, de novo tarde demais.
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