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ONDE ESTAVAM OS NEGROS NA COBERTURA DA COPA DO MUNDO DE 2026?

4 min de leitura
ONDE ESTAVAM OS NEGROS NA COBERTURA DA COPA DO MUNDO DE 2026?

A cobertura da Copa do Mundo de 2026 evidencia um problema estrutural persistente no jornalismo esportivo brasileiro: a baixa representatividade de narradores e comentaristas negros.

Esse cenário contrasta diretamente com a realidade do próprio futebol brasileiro. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a população brasileira é majoritariamente composta por pessoas pretas e pardas. No esporte, essa presença é ainda mais evidente, segundo a pesquisa do doutorando Donald Verônico Alves da Silva, da Universidade de São Paulo (USP), 57% dos jogadores da elite do futebol brasileiro são pretos ou pardos. No entanto, entre os técnicos da Série A, esse número cai para um atualmente, Jair Ventura é o único técnico negro à frente de uma equipe na elite. O levantamento do Donald Verônico foi realizado com base na heteroidentificação de mais de mil profissionais da principal liga masculina do país em 2023.
Esse quadro revela uma contradição histórica, jogadores negros tem um papel fundamental nas conquistas e no sucesso do futebol brasileiro, mas ainda recebem pouco destaque quando se trata dos espaços de análise e comentário na televisão. A maioria dos profissionais que ocupam posições centrais nas transmissões, como narradores e comentaristas principais, ainda é branca. Mesmo com avanços na diversidade dentro das equipes, muitos profissionais negros seguem restritos a funções secundárias, como reportagens de campo ou participações pontuais, sem acesso frequente ao protagonismo nas transmissões.
Outro fenômeno recente também impacta esse cenário, o crescimento de comentaristas que ganham espaço principalmente pelo número de seguidores nas redes sociais, e não necessariamente por formação ou experiência jornalística. Embora as plataformas digitais tenham ampliado o acesso e democratizado a comunicação, a ausência de formação específica pode comprometer a qualidade da análise esportiva, tornando o debate mais superficial e menos contextualizado. Nesta situação, o risco não está apenas na opinião em si, mas na falta de embasamento, apuração e responsabilidade que o exercício do jornalismo exige, especialmente em transmissões de grande alcance.
A desigualdade também aparece nas experiências relatadas pelos próprios atletas. De acordo com o Levantamento sobre Diversidade no Futebol Brasileiro, realizado pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, 41% dos jogadores negros afirmaram já ter sofrido racismo no exercício da profissão. Desses casos, 53,9% ocorreram dentro dos estádios e 11,4% em centros de treinamento e concentrações. Esses dados reforçam que o racismo no futebol não é apenas estrutural, mas também cotidiano, atravessando diferentes níveis da prática esportiva.
A formação de equipes compostas majoritariamente por homens brancos também levanta preocupações sobre a reprodução de visões limitadas e, por vezes, preconceituosas no discurso esportivo. Sem diversidade de perspectivas as análises podem reforçar estereótipos raciais e de gênero já historicamente presentes no futebol. Um exemplo disso ocorreu quando o ex-jogador Bastian Schweinsteiger, atuando como comentarista da ARD, descreveu o futebol da Costa do Marfim como
“selvagem” e “pouco tático”, declaração criticada por carregar referências a estigmas coloniais. Estudos apontam que cerca de 70% dos elogios direcionados a atletas negros destacam atributos físicos, enquanto apenas 18% fazem o mesmo em relação a jogadores brancos. Por outro lado, características técnicas e cognitivas aparecem em menos de 20% das menções a atletas negros, contra 73% para brancos. Esse tipo de abordagem mostra como a falta de pluralidade nas equipes de análise pode contribuir para a manutenção de discursos enviesados, reforçando desigualdades dentro e fora de campo.
Apesar disso, é importante reconhecer que já existem profissionais negros ocupando esses espaços e contribuindo de forma significativa para o jornalismo esportivo. Nomes como Letícia Pinho e Karine Alves mostram que é possível ampliar vozes e perspectivas dentro de um ambiente historicamente marcado pelo machismo e pelo racismo. Ao levarem suas vivências e olhares para as transmissões, essas profissionais não apenas enriquecem o debate esportivo, mas também tensionam estruturas tradicionais, abrindo caminho para uma cobertura mais diversa e representativa.
Essas comentaristas representam avanços importantes e contribuem para ampliar a diversidade de vozes nas transmissões. No entanto, eles ainda são exceção em um ambiente majoritariamente branco. A presença desses profissionais não pode ser tratada como suficiente, nem como ponto final do debate. Pelo contrário, evidencia a necessidade de ampliar oportunidades para que mais pessoas negras ocupem posições de destaque, especialmente ao vivo.
A discussão sobre representatividade vai além da simples inclusão. Não se trata apenas de ter pessoas negras nas equipes, mas de garantir que elas estejam nos espaços de decisão e visibilidade. A pergunta central deixa de ser se há diversidade e passa a ser onde essas pessoas estão e qual poder exercem. Em um país majoritariamente negro, o desafio para a mídia esportiva assim como para outras áreas é romper com estruturas históricas e transformar presença em protagonismo real. Texto de Laura Gaia
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