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Pretuguês, xingamentos e resistência: quando a língua fala mais do que a gramática quer calar

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Pretuguês, xingamentos e resistência: quando a língua fala mais do que a gramática quer calar

Como o preconceito linguístico é usado para perpetuar a exclusão racial e de classe no Brasil.

Como o preconceito linguístico é usado para perpetuar a exclusão racial e de classe no Brasil.
Pretuguês, xingamentos e resistência: quando a língua fala mais do que a gramática quer calar
Autoria: Kahena Bizzoto
No Brasil, poucas violências são tão naturalizadas quanto o preconceito linguístico. Ao ridicularizar um sotaque ou afirmar que alguém “não sabe falar direito”, a sociedade reforça a hierarquia de classe, raça e região. Como lembra Marcos Bagno, em Preconceito Linguístico (1999), não existem formas erradas de falar, mas sim a tentativa de legitimar apenas a variante de uma elite, invisibilizando a riqueza das demais vozes que compõem a língua portuguesa no Brasil.
A questão é que essa violência simbólica nunca é neutra. Lélia Gonzales já havia mostrado, em Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984), que o português falado no Brasil é profundamente atravessado por matrizes africanas e indígenas. O chamado pretuguês é a marca viva dessa resistência: uma oralidade negra que sobrevive apesar de séculos de escravização, colonização e tentativas de apagamento, conhecidas pelo processo de epistemicídio. Desqualificar o “pretuguês” é, portanto, desqualificar os corpos negros que o carregam.
É nesse ponto que a literatura também se faz resistência. Conceição Evaristo, com sua frase célebre “a gente combinamos de não morrer”, transforma aquilo que a gramática normativa rotularia como “erro” em um grito de existência coletiva. Ao escrever dessa forma, ela subverte a lógica da correção e revela a potência da oralidade negra como estratégia de sobrevivência e memória. Sua escrita é exemplo de que a língua não é um código fixo, como tentam nos ensinar, mas sim um campo de disputa política.
O preconceito linguístico, portanto, não se restringe à gramática: ele opera como mecanismo de exclusão racial, de gênero e de classe. A criança da periferia que é repreendida por sua fala aprende cedo que seu lugar social pode estar marcado por uma suposta inferioridade. A trabalhadora imigrante que adapta seu sotaque para ser “aceita” em espaços formais internaliza que sua voz, que carrega todas as expressões de sua história e de seu território, não é bem-vinda. Ou até mesmo dentro do campo político da esquerda brasileira que julgam e caracterizam de machistas e misóginos incorrigíveis a juventude que utiliza palavrões para se comunicarem, sem muitas vezes refletirem sobre as diferentes realidades culturais. Esses são efeitos diretos e cotidianos de uma sociedade que usa a língua como marcador de poder.
Quando falamos do uso de palavrões e expressões conotativas nas periferias, entramos em um terreno ainda mais estigmatizado. Tais palavras são, muitas vezes, vistas como sinais de “baixa escolaridade” ou “falta de educação”, mas, como lembra Bakhtin em A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento (1987), o vocabulário popular sempre teve um papel na construção de solidariedades e resistências coletivas.
Nas periferias brasileiras, palavrões funcionam não apenas como insulto, mas como marcadores culturais, intensificadores de emoções e recursos de pertencimento comunitário. Já que a depender da localidade brasileira os ditos palavrões podem ser mais comuns ou até mesmo desconhecidos. Pensando em uma realidade social e cultural em que a população não branca e escravizada não possuíam o direito de se expressarem seus sentimentos ao serem desconsiderados como seres humanos pelo processo de colonização, os xingamentos tomaram esse lugar da expressão das emoções. A depender da conotação da fala, da situação e da realidade cultural, um único termo tido como “ofensivo” ou “xingamento” pode ser considerado algo positivo, negativo ou neutro. O que até os dias de hoje, confunde quem não está habituado com essa realidade de resistência linguística.
Não é coincidência que a própria palavra “xingar” tenha origem africana, derivada do quimbundo kuxinga, que significa insultar, provocar. O fato de um termo tão central no vocabulário coloquial brasileiro vir de uma língua banta (conjunto linguístico falados pelos povos Bantus na África Subsaariana) mostra como a herança africana se infiltra na nossa fala cotidiana, mesmo quando não reconhecida. Pesquisadoras feministas brancas como Heloísa Buarque de Hollanda apontam que a apropriação de expressões populares na música, na literatura e no slam evidencia sua potência estética e política. Criminalizar o palavrão é, em última instância, criminalizar o corpo periférico que o enuncia. Por isso, defender a legitimidade desses usos é também defender o direito à diversidade linguística e cultural.
Reconhecer a legitimidade das diversas formas de falar português no Brasil é reconhecer a própria história do país. É admitir que o português não é homogêneo, nem “puro”, mas fruto da mistura forjada na violência da colonização e na criatividade da resistência. Ao insistir em uma norma única, o que se faz é perpetuar o colonialismo e negar a diversidade cultural que constitui nossa identidade.
As vozes negras, indígenas, populares e periféricas não precisam pedir licença para existir. Afinal, como disse Conceição Evaristo, “a gente combinamos de não morrer” — e nossa língua é uma das maiores provas disso. E por fim, referenciando Lélia Gonzales mais uma vez: “o lixo vai falar, e numa boa…” (Gonzales, 1984, p. 225).
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