O racismo no Brasil não se sustenta apenas por atitudes individuais, mas por uma rede silenciosa de privilégios e exclusões. É o que a pesquisadora Cida Bento chama de pacto da branquitude — um acordo não declarado, construído ao longo da história, que protege os privilégios da população branca e mantém as desigualdades raciais vivas até hoje.
Esse pacto se manifesta de muitas formas: na composição das lideranças políticas, na seleção de quem ocupa cargos de poder, nas diferenças de acesso à educação, à moradia e à representatividade. Muitas vezes, não é um ato de racismo explícito, mas o silêncio e a omissão diante dele que garantem sua continuidade.
Como explica Eurico (2011), o racismo institucional — aquele que está dentro das estruturas e regras da sociedade — garante a exclusão e o apagamento de uma parte da população. Ele não depende de uma pessoa racista, mas de instituições que funcionam com base em critérios historicamente desiguais.
A ideia de raça, lembra Guimarães (1999), não tem base biológica, mas tem força social. Foi criada para classificar e hierarquizar pessoas. E, como afirmam Quijano (2005) e Baldwin (1984), essa hierarquia foi essencial para o projeto colonial: definir o “branco” como sinônimo de humanidade e progresso, e o “negro” e o “indígena” como o outro a ser dominado.
No Brasil, isso se traduziu na política de branqueamento, que incentivou a miscigenação como forma de “melhorar a raça” e apagar as marcas da negritude. Essa ideia atravessou séculos e ainda aparece hoje na valorização da estética branca e na falta de representatividade negra em espaços de decisão.
Sueli Carneiro (2005) lembra que, em uma sociedade multirracial como a nossa, a raça é determinante para entender como o poder se organiza. O pacto da branquitude é justamente o que mantém essa estrutura intacta — ao mesmo tempo em que se disfarça de neutralidade.
Romper esse pacto exige nomear os privilégios e enfrentar o silêncio que os protege. É reconhecer que o racismo não é um desvio individual, mas parte da forma como o Brasil foi construído.
Referências:
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
EURICO, Shirley Aparecida. Racismo institucional e educação: o papel da escola no combate ao racismo. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.
GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 1999.
MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1994.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 107–130.
BALDWIN, James. The Price of the Ticket: Collected Nonfiction, 1948–1985. New York: St. Martin’s Press, 1984.








