A rebeldia jovem, do punk e hip hop à extrema direita. Entenda a influência da política e das redes sociais na ascensão do conservadorismo.
Esse fenômeno é visível: jovens que se dizem contra tudo que está aí, nem direita nem esquerda, mas defendem repressão, militarização, moralismo, ataques a direitos básicos e à diversidade. Pessoas que repetem discursos de autoridade com a impressão de que estão sendo corajosos, autênticos ou livres. Mas como isso acontece? Por que ideias que sustentam as estruturas mais violentas da sociedade ganham a adesão da nossa juventude? E até daqueles que mais sofrem com elas?
A resposta começa pela educação. Quando a escola deixa de ser espaço de debate e construção, numa realidade em que a internet tem cada vez mais influência e zero controle, abre-se caminho para que o senso comum tome conta. O desmonte da educação pública intensificou-se nas últimas décadas: cortes orçamentários, privatizações, terceirização, escolas cívico‑militares e perseguição a professores e matérias que fomentam o pensamento crítico, são práticas que enfraquecem o potencial transformador da escola. Esse modelo educacional transforma o ensino em treinamento técnico para o mercado, reduzindo currículo, conteúdo social e podando os docentes. Professores são esvaziados de sua autonomia, avaliados por resultados padronizados e separados uns dos outros por lógica de competição.
Existe um projeto político, ideológico e econômico em curso no Brasil há muitas décadas. O neoliberalismo. Surgido globalmente nos anos 1970 e 80 como reação contra o estado de bem-estar social, no Brasil ele ganhou força no governo Collor e se consolidou com FHC, com privatizações, abertura de mercado, desregulação e enxugamento dos gastos públicos. Esse modelo assumiu a ideia de que o sucesso depende exclusivamente do indivíduo, não da coletividade, e que desigualdades são "naturais", resultado de mérito e esforço pessoal.
Para muitos jovens, especialmente os que nasceram já conectados, a internet se tornou o principal espaço de socialização. É ali que se formam referências, se criam vínculos e se descobre o mundo. Mas esse ambiente não é neutro. As redes sociais funcionam com algoritmos que priorizam conteúdos que geram reações, sejam elas de raiva, medo, polêmica, porque isso mantém as pessoas conectadas por mais tempo. Na prática, isso significa que vídeos e postagens com discurso de ódio, teorias conspiratórias e ideias extremistas ganham muito mais visibilidade do que conteúdos educativos ou construtivos. Esse tipo de conteúdo, muitas vezes ligado à extrema-direita, é vendido como “liberdade de expressão” ou “pensar fora da caixa”, quando na verdade repete fórmulas antigas de autoritarismo, machismo, racismo e negação da ciência.
E em meio a essas influências, o discurso “comum” naturaliza desigualdades e enfraquece a inteligência coletiva: sem autonomia crítica, sem reflexão sobre as causas reais de diferentes crises, muitas ideias autoritárias ganham força, enquanto a juventude segue buscando rebelar-se, mas sem rumo real.
O movimento punk surgiu na década de 1970, principalmente na Inglaterra, como uma reação direta à crise econômica, ao desemprego e à sensação de exclusão social. Era uma resposta agressiva a uma sociedade que não oferecia perspectivas. Com uma estética crua, som sujo e letras provocativas, o punk carregava o lema “No future” (Não há futuro, em tradução livre), rejeitando os valores do consumo, autoridade e do conformismo. No Brasil, o punk ganhou força nos anos 1980, anos antes da transição da ditadura para a democracia, tornando-se a voz de jovens e proletários marginalizados que se insurgiram contra a repressão, o conservadorismo e a falta de uma visão de futuro.
Influenciado por ideais libertários, anarquistas e antifascistas, o punk defendia autonomia, crítica ao poder e o rompimento com os valores dominantes, sem buscar a aprovação da sociedade. Era uma rebeldia sincera e inconformada, marcada pelo desejo de desconstruir tudo que consideravam errado. Hoje, diante do enfraquecimento dessas referências e da crise social e política, o que resta para muitos jovens é uma versão distorcida desse “ser do contra”: apresentar-se como conservador, absorvendo ideais liberais e neoliberais que se disfarçam de tecnicismo e racionalidade. Essa forma de pensar se vende como “a maneira correta” de entender o mundo, mas, na verdade, legitima estruturas de desigualdade e controle e nada tem de contestação real.
Desde o final dos anos 1980, o rap e o hip hop ocupam também esse espaço de revolta e contestação. Nas batalhas de rima, nos bailes, nas letras em que se denuncia o racismo estrutural, a violência do Estado, dentre outros temas, a voz de quem nunca teve espaço se faz ouvida. Muito além do entretenimento, esses movimentos criaram espaços onde a juventude elabora críticas, questiona estruturas de poder e constrói novas referências. Sendo um meio pelo qual muitos moldam seu olhar sobre o mundo.
O que está em disputa, no fim das contas, é a consciência da juventude. Se em outros tempos ela canalizou sua revolta para movimentos que desafiavam o poder e denunciavam as injustiças, hoje vemos parte dela sendo capturada por discursos que apenas mantém as engrenagens da opressão girando. E isso não acontece por acaso. É resultado de um processo contínuo de desmonte da educação, precarização da vida, alienação cotidiana e manipulação das redes. Mas a história mostra que sempre houve forças de resistência capazes de transformar indignação em ação coletiva. A gente precisa criar e fortalecer esses espaços, incentivar a troca de ideia, o pensamento crítico e a vontade de mudar as coisas. Para que ser jovem volte a ser, antes de tudo, ter coragem de imaginar e construir um mundo diferente.








