Pesquisas mostram que mulheres negras são as que mais pagam impostos em proporção à renda. Ou seja, quem menos ganha é quem mais contribui para o Estado — e recebe menos em retorno.
Maternidade Preta e a Injustiça Tributária no Brasil
No Brasil, ser mãe já é tarefa de resistência. Ser mãe preta é carregar, além da maternidade, o peso de uma estrutura que historicamente explora, silencia e penaliza. O racismo, o machismo e a desigualdade econômica atravessam o cotidiano dessas mulheres — e o sistema tributário, muitas vezes invisível no debate público, é mais um reflexo dessa injustiça.
Pesquisas mostram que mulheres negras são as que mais pagam impostos em proporção à renda. Ou seja, quem menos ganha é quem mais contribui para o Estado — e recebe menos em retorno.
O dado vem de um estudo conduzido pelo professor Evilásio Salvador, da Universidade de Brasília (UnB), em parceria com Sílvia Yannoulas. A pesquisa cruzou informações da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) e da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) para analisar como os tributos incidem sobre diferentes grupos sociais.
O resultado é: as mulheres negras estão entre as que mais pagam impostos no Brasil pelo sistema tributário brasileiro.
Segundo o estudo, os 10% mais pobres da população comprometem cerca de 32% de sua renda com impostos, enquanto os 10% mais ricos pagam apenas 21%. Entre os mais pobres, 68% são pessoas negras e mais da metade são mulheres.
“Não há dúvida de que a mulher negra é a mais punida pelo sistema tributário brasileiro, enquanto o homem branco é o mais favorecido”, destaca Evilásio Salvador (2013).
Esses números ganham contornos ainda mais profundos quando olhamos para o papel social das mães pretas. Muitas são chefes de família, sustentam sozinhas filhos e parentes, e enfrentam empregos precários, baixos salários e longas jornadas.
Além disso, a maior parte dos tributos pagos por essas mulheres vêm de impostos sobre o consumo — presentes em alimentos, produtos de higiene, transporte e remédios. Itens básicos da sobrevivência, especialmente para quem cuida de uma casa e de uma família.
Em outras palavras: quanto mais se gasta para viver, mais se paga em imposto. E quanto menor a renda, maior o peso dessa carga.
A colonialidade, analisada por Aníbal Quijano (2005), mostra que a divisão racial do trabalho e da riqueza é um traço central da modernidade latino-americana. O que era hierarquia colonial se transformou em desigualdade fiscal.
Assim, o que parece apenas uma questão econômica é, na verdade, um reflexo direto das relações raciais no país.
A consequência dessa estrutura é brutal. As famílias pretas têm menos condições de investir em educação, saúde e segurança alimentar — o que perpetua o ciclo de pobreza e vulnerabilidade.
A filósofa Sueli Carneiro (2005) aponta que, em uma sociedade multirracial como a brasileira, a raça é um fator determinante na forma como o poder e os recursos são distribuídos. Isso significa que, enquanto a branquitude se beneficia de um sistema que a favorece, as mulheres negras continuam pagando, em todos os sentidos, o preço mais alto.
A reforma tributária pode ser pensada com recorte de gênero e raça, garantindo que quem mais precisa não continue sendo quem mais paga. Mesmo com a promessa de alívio fiscal, a estrutura tributária brasileira continua desigual. A isenção do imposto de renda para rendas formais não atinge quem mais sente o peso dos impostos. Sem uma reforma que considere a cor e o gênero como determinantes, a justiça fiscal segue sendo privilégio branco. E sim, precisamos apoiar o projeto que trata da isenção de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5.000 por mês (PL 1.087/2025), ainda assim a luta pelo fim da desigualdade social continua e debater de que forma a economia influência na perpetuação da estrutura de classes sociais é um compromisso histórico.
Enquanto o debate se concentra em quem vai deixar de pagar imposto de renda, segue intocado o problema central: a tributação sobre o consumo, que recai com força sobre família negra composta de trabalhadoras e trabalhadores informais. Falar de justiça tributária é falar de justiça racial. Nenhuma reforma será justa enquanto a cor da renda e a cor do imposto não forem encaradas de frente.
Mais do que números, trata-se de reconhecer o valor do trabalho e da vida das famílias negras e interraciais — aquelas pessoas que sustentam lares, comunidades e boa parte da economia brasileira, mesmo sem que o Estado as veja por inteiro.
Referências:
SALVADOR, Evilásio;. Mulher negra é quem paga mais impostos no Brasil. Matéria: Geledès INESC/UnB, 2013.
EURICO, Shirley Aparecida. Racismo institucional e educação. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. CLACSO, 2005.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. USP, 2005.








