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A "Revolução Verde": Como a monocultura foi consolidada no Brasil durante a Ditadura Militar

6 min de leitura
A "Revolução Verde": Como a monocultura foi consolidada no Brasil durante a Ditadura Militar

Um Legado da Ditadura Militar: A Consolidação da Monocultura no Brasil e os Desafios para um Futuro Sustentável

Um Legado da Ditadura Militar: A Consolidação da Monocultura no Brasil e os Desafios para um Futuro Sustentável
O Legado da Ditadura na Agricultura Brasileira e a Alternativa da Agroecologia
Autoria: Gabriel Demetrius
Durante a ditadura militar, o Estado brasileiro orquestrou uma intervenção maciça na agricultura, visando não apenas a autossuficiência alimentar, mas a geração de divisas para financiar outros setores da economia e expandir a produção para o mercado externo. Esse período foi marcado pela adoção da "Revolução Verde" no Brasil, um conjunto de inovações tecnológicas que em tese buscavam acelerar a modernização do campo. Essa modernização, no entanto, veio com um preço: um incentivo massivo à mecanização, ao uso intensivo de fertilizantes e à introdução de um "pacote tecnológico" que incluía sementes geneticamente modificadas e herbicidas. Essa abordagem criou uma profunda dependência de insumos externos, sujeitando o produtor rural às flutuações do mercado internacional e a um modelo de produção de alto custo.
A política agrícola da ditadura priorizou a produção em massa e a automação, em detrimento da agricultura familiar e das comunidades rurais, que historicamente foram a base da produção de alimentos no país. Para consolidar esse modelo, o regime militar forneceu um robusto apoio legal e fiscal. Um exemplo notório é a Lei nº 5.106 de 1966, que estabeleceu incentivos fiscais para empreendimentos florestais, como o plantio de Eucalyptus e Pinus. Essas medidas, embora justificadas como modernização, aceleraram a concentração de terras e de renda, um processo frequentemente associado à grilagem de terras públicas e a danos ambientais irreversíveis.
O golpe militar de 1964 é frequentemente descrito como um evento que "interrompeu brutalmente" o avanço da reforma agrária no Brasil. Em vez de redistribuir terras e promover a justiça social no campo, o regime optou por políticas que incentivaram a expansão do latifúndio. A combinação perversa da concentração de terras com a mecanização intensiva teve uma consequência social devastadora: um êxodo rural sem precedentes. Na década de 1970, aproximadamente 15 milhões de pessoas foram forçadas a deixar o campo em direção às cidades, deslocando pequenos agricultores e trabalhadores rurais para atender a um novo modelo industrial que demandava mão de obra urbana.
O modelo de monocultura, que hoje é o alicerce do agronegócio, sustenta-se em um ciclo contínuo e crescente de uso de agrotóxicos e água. Desde 2008, o Brasil detém o lamentável título de maior consumidor mundial de agrotóxicos, o que acarreta sérios impactos ambientais, como o desmatamento massivo, a compactação do solo que reduz sua fertilidade e a contaminação de rios e lençóis freáticos. Além disso, o setor agrícola é responsável por cerca de um terço das emissões de gases de efeito estufa no país e consome aproximadamente 70% do uso de água doce. Paradoxalmente, este mesmo modelo, que depende de recursos naturais em larga escala, é altamente vulnerável a eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e inundações, cujas frequências e intensidades são agravadas pelas próprias mudanças climáticas.
Atualmente, a concentração de terras no Brasil é uma das maiores do mundo, com menos de 1% das propriedades rurais ocupando quase metade da área rural total. Essa má distribuição de terras é uma das principais causas da extrema pobreza e do êxodo rural contínuo. A monocultura da soja, por exemplo, que ocupa 47% da área plantada com grãos no Brasil, gera apenas 5,5% dos empregos no setor, demonstrando que o modelo não distribui os benefícios econômicos de forma equitativa. A expansão descontrolada da monocultura, impulsionada pela demanda do mercado internacional, muitas vezes leva à expulsão violenta de comunidades locais e a um número recorde de conflitos agrários, evidenciando a violência inerente a esse sistema.
Nesse cenário complexo, a agroecologia emerge como uma alternativa viável e abrangente, que se alinha com o conhecimento milenar dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Diferente da monocultura, que foca na produção de uma única cultura para maximizar o lucro, a agroecologia é um campo de conhecimento multidisciplinar que busca o equilíbrio dinâmico entre a agricultura e o meio ambiente. Seus princípios incluem a promoção da biodiversidade agrícola, a troca de conhecimentos entre produtores e a comunidade científica, e o uso consciente e regenerativo dos recursos naturais.
O conhecimento dos povos indígenas e comunidades tradicionais é a base prática e comprovada para a sustentabilidade. Eles são os "fiéis guardiões da agrobiodiversidade", com sistemas de produção sofisticados que demonstram uma relação de profundo respeito e interdependência com a natureza. Enquanto 20% da floresta amazônica foi desmatada nos últimos 40 anos para dar lugar a atividades como a pecuária e a monocultura, as Terras Indígenas perderam apenas 1,2% de suas florestas originais, o que demonstra inequivocamente que a presença e o manejo dessas comunidades são uma estratégia fundamental de conservação ambiental.
A transição para a agroecologia é uma necessidade urgente para garantir a segurança alimentar da população brasileira, promover a justiça social no campo e assegurar a sustentabilidade ambiental a longo prazo. Embora existam barreiras políticas significativas, impostas pelo poderoso lobby do agronegócio que atua dentro das camadas do próprio Estado, a agroecologia já se mostra economicamente viável. Estudos demonstram que sistemas de policultivos, que imitam a diversidade dos ecossistemas naturais, podem render "até 71% a mais por área" do que os monocultivos, desmistificando a ideia de que a produtividade está atrelada à monocultura em larga escala.
O futuro do campo brasileiro reside na capacidade de valorizar o conhecimento ancestral e adotar um novo paradigma que alinhe produtividade com a saúde do planeta e o bem-estar social de toda a população. É uma escolha crucial entre a continuidade de um modelo extrativista, que esgota os recursos naturais e concentra a riqueza, e a adoção de um caminho de regeneração, que respeita os limites do planeta e promove a equidade social.
A história da agricultura brasileira contemporânea é um reflexo das transformações econômicas e sociais que o país vivenciou, com um modelo de produção que foi deliberadamente construído por meio de políticas estatais. O "agronegócio", caracterizado pela monocultura em larga escala, não é um fenômeno orgânico, mas o resultado direto de um projeto de desenvolvimento implementado durante o regime militar, que governou o Brasil entre 1964 e 1985.
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