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"Leia a Bíblia" no ônibus: liberdade religiosa ou privilégio cristão?

3 min de leitura
"Leia a Bíblia" no ônibus: liberdade religiosa ou privilégio cristão?

Análise sobre a laicidade seletiva: enquanto expressões cristãs são normalizadas, manifestações de matriz africana enfrentam silenciamento e preconceito, expondo um desequilíbrio estrutural na liberdade de crença do país.

Análise sobre a laicidade seletiva: enquanto expressões cristãs são normalizadas, manifestações de matriz africana enfrentam silenciamento e preconceito, expondo um desequilíbrio estrutural na liberdade de crença do país.
Por Ana Moreira
Imagine um cartaz com a palavra “Laroyê” colado na traseira de um ônibus circulando pela cidade. O que você acha que aconteceria?
Provavelmente, começariam a circular vídeos indignados de vereadores nas redes sociais, comentários acusando a mensagem de “coisa do demônio”, pedidos de investigação e cobranças por parte de quem acredita que o espaço público não deve ser “usado para divulgar religiões”.
Mas o curioso é que, quando a frase estampada é “Leia a Bíblia”, o efeito é justamente o ao contrário: a iniciativa é vista como educativa.
A diferença de tratamento revela muito mais do que uma simples discordância religiosa. Ela escancara um desequilíbrio estrutural: embora o Brasil seja, oficialmente, um Estado laico, as expressões cristãs circulam livremente nos espaços públicos, enquanto outras manifestações religiosas especialmente as de matriz africana, são constantemente silenciadas, atacadas ou invisibilizadas.
Na teoria, o argumento usado para justificar mensagens como “Leia a Bíblia” é a liberdade de expressão religiosa. Porém, na prática, essa liberdade tem funcionado quase exclusivamente para o cristianismo. É uma brecha legal que permite que a fé majoritária ocupe ruas, ônibus, repartições públicas e escolas sem grandes questionamentos, enquanto outras crenças precisam se justificar ou são automaticamente vistas como inadequadas.
Essa naturalização de símbolos cristãos no espaço público não é algo natural. Ela é resultado de uma estrutura onde o cristianismo não apenas é maioria — ele também molda a política, a cultura e o próprio entendimento de moral das pessoas. Fenômeno chamado de FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO.
Quem ocupa cargos de decisão, aprova contratos ou define o que pode ou não circular costuma ter formação cristã e, muitas vezes, toma decisões baseadas nessa perspectiva.
Assim, expressões como “Leia a Bíblia” passam despercebidas ou são acolhidas como “universais”. Já “Laroyê”, saudação ligada à entidade Exu nas religiões afro-brasileiras, seria motivo de polêmica. Isso porque o cristianismo, ao longo do tempo, deixou de ser apenas uma fé entre outras e se consolidou como padrão de normalidade, o que está fora dele precisa se defender, se explicar, se esconder.
Questionar essa lógica não é atacar a fé cristã. É defender o direito de todos os brasileiros e brasileiras à liberdade de crença e de expressão.
Enquanto não reconhecermos esse desequilíbrio, vamos continuar vivendo sob uma ideia de liberdade religiosa que, na prática, vale apenas para alguns.
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