Obra recém-anunciada pela prefeita Suellen Rosim no sábado (5) como uma das medidas para reforçar o abastecimento da ETA, foi suspensa nesta terça-feira (7) por falta de canos
Crise Hídrica em Bauru: Falha em Plano e Obras Paralisadas Por Gabriel Demetrius e Andrezza Marques
Bauru enfrenta uma crise de abastecimento que se tornou parte da rotina de seus moradores. O rodízio de água, adotado em diversos bairros, é resultado de uma sequência de falhas na implementação do Plano Diretor de Águas (PDA) — documento técnico criado para prevenir a situação atual.
Elaborado em 2013 pela empresa Hidrosan Engenharia, o PDA apresentou um diagnóstico detalhado das vulnerabilidades do sistema de abastecimento de Bauru e propôs ações estruturais de longo prazo. O plano previa, entre outras medidas, a diversificação das fontes de captação para reduzir a dependência do Rio Batalha, a modernização da Estação de Tratamento de Água (ETA), a substituição dos hidrômetros e a redução das perdas de água tratada, então próximas de 50%.
O plano foi sancionado como lei apenas em 2019, pela Lei Municipal nº 7.315, cinco anos após sua conclusão. Nesse período, deixou de ser aplicado de forma sistemática. Em 2021, uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara Municipal concluiu que o PDA não foi executado conforme o cronograma original, e encaminhou o relatório ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) para apuração de possíveis atos de improbidade administrativa.
Entre 2014 e 2024, a maioria das metas do plano não foi cumprida. O índice de perdas no sistema de distribuição permanece alto, e a dependência do Rio Batalha ainda representa cerca de 27% do abastecimento municipal. A cidade chegou a decretar estado de emergência hídrica em 2021, quando aproximadamente 90 mil moradores foram afetados diretamente pelo racionamento.
Em resposta, a prefeitura lançou o programa “Água de Todos”, que prevê investimentos de R$ 64,5 milhões em novos poços, reservatórios e adutoras. Entretanto, parte das ações do programa substitui medidas já previstas no PDA, mas nunca implementadas.
Na última semana, um novo episódio chamou atenção durante as ações emergenciais da prefeitura. A obra de captação do poço do Jardim Imperial, anunciada no sábado (5) como uma das medidas para reforçar o abastecimento da ETA, foi suspensa nesta terça-feira (7) por falta de canos.
A informação foi divulgada pela vereadora Estela Almagro (PT) e confirmada pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE), que informou que a obra será retomada assim que o material for entregue e que o cronograma segue dentro do prazo.
A interrupção ocorreu dois dias após o início da obra, que atende uma das regiões mais afetadas pela escassez de água. Atualmente, cerca de 100 mil pessoas dependem da captação do Rio Batalha, principal fonte em situação crítica durante o período de estiagem.
A falta de avanços consistentes na execução do PDA e episódios como a paralisação da obra emergencial reforçam os questionamentos sobre a gestão do saneamento em Bauru.
O tema também tem alimentado o debate político sobre o futuro do Departamento de Água e Esgoto (DAE). Enquanto o governo municipal analisa alternativas de concessão ou parceria com a iniciativa privada, sindicatos e movimentos sociais defendem a manutenção da autarquia sob controle público, citando a importância da transparência e da gestão direta de um serviço essencial.
A Câmara Municipal rejeitou, na última segunda-feira (6), um pedido de Comissão Processante apresentado pelo vereador Eduardo Borgo (Novo) contra a prefeita Suéllen Rosim (PSD), que acusava a gestão de descumprir o PDA. O pedido foi rejeitado por 16 votos contrários.
A trajetória do Plano Diretor de Águas mostra que a crise hídrica em Bauru decorre menos da falta de diagnósticos técnicos e mais da ausência de execução efetiva das políticas planejadas.
O desafio atual envolve garantir o cumprimento das metas previstas no PDA, fortalecer os mecanismos de fiscalização e assegurar investimentos contínuos em infraestrutura para evitar que a falta de água siga comprometendo o cotidiano da população.







