Enquanto bairros operários chegam a ficar mais de uma semana sem água, plano de concessão avança na prefeitura. Sindicato denuncia sucateamento proposital para justificar entrega do serviço à iniciativa privada.
Crise Hídrica em Bauru: Entre a Seca e a Sombra da Privatização
Nesta quinta-feira (28), o Departamento de Água e Esgoto (DAE) iniciou mais um rodízio no abastecimento de água em Bauru. Para milhares de moradores de bairros da periferia, como Vila Falcão, Alto Paraíso e Jardim Ouro Verde, a cena de torneiras secas e baldes na fila não é uma novidade, mas uma dura realidade que se repete há anos. O rodízio, que já deixou mais de 140 mil pessoas em racionamento severo, revela um problema muito mais profundo do que a seca do Rio Batalha, levantando a suspeita de que a crise seja o argumento perfeito para um objetivo maior: a privatização.
A narrativa oficial culpa a estiagem, mas os números mostram um descaso histórico com a infraestrutura. Quase metade da água tratada em Bauru, impressionantes 47,7%, se perde em vazamentos de uma rede antiga e sem manutenção antes mesmo de chegar às casas. A média nacional de perdas é de 38,45%. Essa verdadeira hemorragia é a prova de um colapso que, segundo especialistas e servidores, poderia ter sido evitado.
Em 2013, um estudo completo chamado Plano Diretor de Água (PDA) foi elaborado ao custo de R$ 1,3 milhão. Ele trazia um diagnóstico preciso e apontava as soluções necessárias, como a reforma da infraestrutura e a redução drástica das perdas. No entanto, o plano foi engavetado por sucessivas gestões e só virou lei em 2019, sem que suas principais recomendações fossem colocadas em prática.
Enquanto isso, a cidade se dividiu em duas realidades. Cerca de 40% da população, principalmente nos bairros mais antigos e operários, depende do vulnerável Rio Batalha e sofre com o racionamento constante. Os outros 60%, abastecidos pelo Aquífero Guarani, mal sentem os efeitos da crise.
A injustiça fica ainda mais clara ao se observar que, enquanto o consumo doméstico é severamente controlado, grandes empresas e o agronegócio exploram o aquífero de forma intensiva, com registros de extração acima do permitido e drenagens que não são devidamente fiscalizadas. Na prática, a conta da crise é paga pela população mais pobre.
No centro dessa disputa está o Departamento de Água e Esgoto (DAE). Para o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserm), a crise é resultado de um projeto de "sucateamento para privatizar". A entidade afirma que a culpa não é dos servidores técnicos, mas sim da má gestão política, que deliberadamente deixou o DAE chegar a essa situação para justificar sua entrega à iniciativa privada.
A gestão da prefeita Suéllen Rosim não esconde a intenção. Um "Núcleo de Estudos e Concessões" foi criado para avaliar a entrega de serviços públicos, e o DAE é o principal alvo. O discurso oficial fala em "modernização" e na "incapacidade" do poder público de fazer os investimentos necessários.
O primeiro passo dessa estratégia parece ser a concessão da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Vargem Limpa. O Sinserm alerta, porém, que o plano é muito mais amplo. A proposta de concessão inclui também os serviços mais lucrativos do DAE, como a instalação de hidrômetros, a leitura do consumo e a cobrança das contas.
Na prática, seria uma tática de "pegar o filé e largar o osso". A empresa privada ficaria com a parte que dá lucro, enquanto o DAE público sobraria com a responsabilidade de cuidar da rede de tubulação velha e cheia de vazamentos. Para o sindicato, isso significaria o esvaziamento da autarquia, demissões e o colapso do sistema.
Recentemente, a prefeitura anunciou um investimento de R$ 64,5 milhões no "Programa Água de Todos", incluindo um financiamento de R$ 40 milhões da Caixa Econômica Federal. O objetivo é perfurar novos poços e diminuir a dependência do Rio Batalha.
Contudo, a manobra é vista com desconfiança. É apontado que o poder público está assumindo uma dívida milionária para "arrumar a casa", ou seja, modernizar o sistema com dinheiro público para, em seguida, entregá-lo como um ativo muito mais seguro e lucrativo para uma empresa privada.
Para quem sofre com a falta d'água, a situação é desesperadora. O cansaço e a frustração com o serviço público falho abrem espaço para que a promessa de uma solução privada pareça atraente. É nesse cenário que o sofrimento da população se transforma em argumento político para transformar a água, um direito básico, em uma mercadoria com preço de mercado.
A luta pela água em Bauru está longe do fim. O financiamento pode aliviar os sintomas mais graves por um tempo, mas o projeto de privatização continua na pauta. O futuro do saneamento na cidade depende de qual força sairá vitoriosa: a que defende a água como um bem público e um direito de todos ou a que a enxerga como uma oportunidade de negócio.







