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São Paulo

A Tecnologia como Vigilância: Negócios e Política na Educação Paulista

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A Tecnologia como Vigilância: Negócios e Política na Educação Paulista

A modernização da educação na rede estadual de São Paulo, vendida como um salto para o futuro, revela-se um projeto de contornos problemáticos, marcado por investimentos massivos com eficácia duvidosa e sérios questionamentos éticos.

A modernização da educação na rede estadual de São Paulo, vendida como um salto para o futuro, revela-se um projeto de contornos problemáticos, marcado por investimentos massivos com eficácia duvidosa e sérios questionamentos éticos.
Análise da Política Educacional Digital em São Paulo Autoria:Gabriel Demetrius
A Secretaria da Educação (Seduc-SP), sob a atual gestão, destinou um montante que se aproxima de R$ 500 milhões para a implementação de plataformas e materiais digitais. Contudo, essa vultosa aplicação de recursos públicos carece de comprovação de resultados. Estudos conduzidos por pesquisadores de renomadas instituições, como a USP, são taxativos ao apontar a ausência de correlação relevante entre o uso intensivo das ferramentas digitais impostas e qualquer avanço significativo no desempenho acadêmico dos estudantes, medido por avaliações como o Saresp. A política, portanto, falha em seu objetivo primordial: melhorar a qualidade do aprendizado.
A insistência nesse modelo se torna ainda mais questionável ao se analisar o evidente conflito de interesses que paira sobre o comando da pasta. O secretário da Educação, Renato Feder, é sócio relevante da Multilaser, gigante de tecnologia que, por meio de suas subsidiárias, atua no mercado de softwares educacionais, firmando contratos com o poder público. Embora o secretário alegue estar licenciado de funções administrativas, sua posição como acionista levanta suspeitas sobre a imparcialidade de suas decisões. A polêmica tentativa de retirar São Paulo do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) para impor um "material digital" próprio é um exemplo emblemático dessa agenda, que parece mais alinhada à criação de um mercado cativo para as "ed-techs" do que a um projeto pedagógico consistente.
Nesse contexto, a tecnologia, que deveria ser um instrumento de libertação e aprofundamento do conhecimento, é convertida em uma ferramenta de vigilância e coerção. A Resolução SEDUC-4, de 19 de janeiro de 2024, é a formalização dessa lógica de controle. Ao atrelar a avaliação de desempenho de diretores e, por consequência, de toda a comunidade escolar, ao cumprimento de metas quantitativas de uso das plataformas, o governo estadual subverte a finalidade da educação. O foco se desloca da qualidade do ensino e da aprendizagem significativa para a comprovação de cliques e tempo de tela. Professores e gestores são transformados em meros operadores de um sistema, pressionados a cumprir metas burocráticas sob o risco de punições em suas carreiras.
O resultado dessa política é a precarização do processo educativo. Educadores relatam uma rotina de sobrecarga de trabalho, esgotamento e perda de autonomia pedagógica, sendo impedidos de adaptar os conteúdos às realidades de suas turmas. Para os alunos, a experiência se resume, muitas vezes, a uma sucessão de atividades repetitivas e descontextualizadas, que não estimulam o pensamento crítico nem a colaboração. O diálogo em sala de aula é substituído pela interação fria com uma interface digital. Trata-se do uso político da máquina pública para consolidar um modelo de negócio disfarçado de projeto educacional.
Em suma, o que se desenrola em São Paulo é um ciclo pernicioso: um investimento milionário que não gera retorno acadêmico, uma política pública moldada por interesses privados e um sistema de controle que desumaniza e desvaloriza os profissionais da educação. A comunidade escolar não clama por mais vigilância, mas por um investimento genuíno em sua valorização, em infraestrutura adequada e em tecnologias que sirvam, de fato, como apoio a um projeto pedagógico emancipador, e não como um fim em si mesmo. A educação paulista exige transparência, ética e, acima de tudo, respeito.
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