Nos 52 anos do Hip Hop, viaje da histórica festa que deu origem à cultura no Bronx à evolução dos sons. Entenda as características de subgêneros como Boom Bap, Trap, Drill, Lo-fi e Plug Rap, que dominam a cena musical hoje.
Por Ana Moreira
No dia 11 de agosto, há 52 anos, o DJ Kool Herc e a sua irmã Cindy Campbell fariam a famosa festa que deu origem à cultura hip hop. Realizada no número 1520 da Sedgwick Avenue, no Bronx, em Nova York, o evento começou como uma forma de arrecadar dinheiro para comprar materiais escolares para o ano letivo.
Uma festa que seria apenas uma volta às aulas acabou se tornando o marco inicial da cultura hip hop. Naquela noite, Kool Herc inovou ao usar dois toca-discos para estender as partes instrumentais das músicas, chamadas de “break”, que seriam basicamente as partes mais marcantes e dançantes das músicas.
Hoje, sabemos que o hip hop é uma cultura que carrega consigo elementos fundamentais: DJ, MC, BBoy/Bgirl (Breaking), Grafitti, e o considerado quinto elemento, o Conhecimento.
O Disc Jockey, da sigla DJ, é quem faz a mixagem dos beats através de batidas e samples. O mestre de cerimônia, ou mais conhecido como MC, que é quem conduz a fala durante o evento e faz as rimas em cima dos beats. O Breaking, a expressão através da dança, acompanha a música realizando movimentos acrobáticos com ênfase na marcação de bateria do breakbeat, com movimentos sincronizados com os braços e pernas, além de giros no chão e freeze. O graffiti como arte visual, expressa a filosofia da cultura hip hop através das pinturas, utilizando palavras, símbolos, personagens e diversas técnicas diferentes. E por fim, o conhecimento, que dá a base e a sintonia entre todos os outros garantindo a conexão, preservação, o fundamento e o caráter de transformador social.
A partir do elemento MC, surgiu a música própria do Hip Hop, o RAP, que significa “Ritmo E Poesia” (tradução do inglês Rhythm And Poetry). Junto do conhecimento, que fala sobre a realidade periférica e a história do povo negro, formam a base que faz o DJ tocar, o MC rimar, e o Bboy ou Bgirl realizar seus movimentos. No decorrer do tempo, a música da cultura hip hop se consolidou no cenário mundial como um gênero musical específico com suas características próprias. A partir de mudanças sociais e tecnológicas, novas vertentes foram surgindo e desenvolvendo mais de 70 subgêneros de batidas diferentes, dentre elas destacamos algumas:
Se caracteriza pelo ritmo marcado do bumbo e da caixa, o termo “Boom bap” é uma onomatopeia que representa o grave e agudo presente nos beats e samples, que em sua boa parte são produções de jazz, soul ou funky. Se popularizou no final dos anos 80, e é considerada a época de ouro do hip hop.
Com baixo BPM, esse estilo de hip hop deixa lacunas maiores para que os MCS consigam desenvolver seus versos de forma mais profunda, fazendo com que esse subgênero antecessor se aproxime muito do que se tornaria o backpack rap algum tempo depois.
Originado nos Estados Unidos em meados da década de 2010, o plug rap se destaca por batidas leves, melodias suaves e atmosferas etéreas, muitas vezes com BPMs entre 120 e 160. Diferente do trap tradicional, aposta em sonoridades mais limpas, hi-hats espaçados, graves sutis e samples melódicos, criando uma sensação relaxada, mas ainda dançante. A estética visual também é parte importante, dialogando com moda, lifestyle e referências da internet. As letras podem variar entre ostentação, cotidiano, relacionamentos e vivências pessoais.
No Brasil, o plug começou a ganhar força no final dos anos 2010, impulsionado por artistas independentes e produtores que adaptaram a estética norte-americana ao contexto nacional. Misturando gírias locais, beats tropicais e flows melódicos, o estilo conquistou nichos jovens nas redes sociais, especialmente no YouTube e SoundCloud, antes de chegar a plataformas maiores.
O Jersey Club Rap surgiu em Newark, Nova Jersey, Estados Unidos, no início dos anos 2000, como uma fusão entre o club music local (Jersey Club) e elementos do hip hop e do rap. Caracteriza-se por batidas rápidas (geralmente entre 130 e 140 BPM), kicks cortados, hi-hats sincopados e samples repetitivos, criando um ritmo dançante e agressivo. As faixas costumam ter drops marcantes e vocais picotados, muitas vezes sobrepostas a ganchos chamativos, o que torna o estilo popular em festas e clubes. No visual e na estética, o Jersey Club Rap acompanha a energia dos bailes, com cores vibrantes e uma pegada urbana forte.
Surgiu em Atlanta, Estados Unidos, por volta dos anos 2000. Com características singulares, como os BPMs que variam de 90 a 140, batidas rápidas e dançantes, o trap também vem acompanhado de autotune e de letras que abordam desigualdades, ostentação e o uso de drogas, como o próprio nome diz. A palavra “Trap”, em inglês, é uma gíria para o tráfico.
O Trap chegou oficialmente no Brasil com o álbum “Cores e Valores” do grupo Racionais MCs. Como o som era inovador, moderno e as letras tinham uma temática diferente, os fãs antigos do grupo, que estavam acostumados com o boom bap raiz feito de forma orgânica, não curtiram muito. E não só eles, mas como muita gente dentro da cena ainda tem dificuldade de aceitar o trap.
Surgiu em 2010, e por ser um subgênero da cena predominantemente underground, muitos artistas publicaram seu som no aplicativo “Soundcloud”, usado de referência na nomeação do subgênero.
Ele é caracterizado pelo BPM lento, com flows mais calmos e melódicos que traziam uma vibe mais introspectiva e nebulosa para as produções, assim como o lo-fi. As temáticas giram em torno de vivências adolescentes, uso de drogas, melancolia e relacionamentos.
Subgênero que surgiu em 2010, em Chicago e na Inglaterra, em Londres, e que é conhecido pela agressividade na sua forma de expressão, músicas que falam de forma violenta sobre a violência. Sons que criam um ambiente tenso, com beats mais acelerados e pesados.
A palavra “drill”, traduzindo o termo para português quer dizer furar, foi adotada pela cultura pensando no modo em que os rappers escolhiam se expressar. Agressivo de forma corajosa, como um tiro, um choque de realidade aos espectadores, um manifesto de quem quer ser ouvido.
Muitas pessoas têm o costume de confundir Drill com Trap, porém, a semelhança entre ambos está apenas musicalmente falando. O conteúdo das letras se difere: enquanto trap foca em drogas e ostentação, o drill fala sobre violência armada e dificuldades cotidianas.
O crunk surgiu no sul dos Estados Unidos, especialmente em cidades como Memphis e Atlanta, no final dos anos 1990 e início dos 2000. É marcado por batidas agitadas, uso intenso de 808s, sintetizadores simples e refrões repetitivos, feitos para serem cantados (ou gritados) junto com a plateia. O estilo é pensado para pistas e festas, com energia alta e vocais muitas vezes mais próximos de gritos do que do rap melódico. As letras geralmente giram em torno de celebração, diversão, ostentação e, em alguns casos, provocações diretas a rivais.
Embora tenha perdido espaço no mainstream após meados dos anos 2000, o crunk deixou forte influência no trap e no hip hop de festa, e ainda aparece em faixas que buscam aquela energia explosiva característica.
O lo-fi rap é uma vertente do hip hop caracterizada por produções com baixa fidelidade sonora, batidas suaves, samples de jazz, soul ou música ambiente e atmosferas introspectivas. O gênero tem como foco a melodia e o mood, mais do que a performance lírica agressiva, criando um clima relaxante e contemplativo. Muitas faixas são instrumentais ou têm vocais discretos, sendo populares como trilha sonora para estudo, trabalho ou momentos de relaxamento. O lo-fi rap surgiu nos Estados Unidos nos anos 2000, mas se espalhou rapidamente globalmente graças a plataformas como YouTube e SoundCloud.
O hip hop é muito mais que apenas um gênero musical, é uma cultura diversificada, que está em constante movimento e evolução. Reflete a voz e as vivências das comunidades periféricas ao redor do mundo e é uma ferramenta poderosa de transformação social. Uma voz que resiste e se constrói com coletividade e empoderamento.
O hip hop é a arte em forma de resistência, denúncia e celebração.






